Justiça climática entra no centro das políticas de prevenção de riscos de desastres no Brasil
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9ª Campanha Nacional #AprenderParaPrevenir: Cidades sem Risco, realizada pela Secretaria Nacional de Periferias e pelo Programa Cemaden Educação, mobiliza escolas, comunidades e Defesas Civis para reduzir riscos em territórios vulneráveis
BRASÍLIA / SÃO PAULO, 2026 — Em um país onde a crise climática amplia desigualdades históricas, os dados oficiais mostram que o risco também tem cor e território. Segundo o Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), populações pretas, pardas e indígenas são as que mais enfrentam precariedade urbana e menor acesso a infraestrutura básica — fatores que ampliam a exposição a enchentes, deslizamentos e ondas de calor extremo. É nesse contexto que a 9ª Campanha Nacional #AprenderParaPrevenir: Cidades sem Risco coloca a justiça climática no centro da agenda de prevenção de riscos de desastres no Brasil.
A campanha é realizada pela Secretaria Nacional de Periferias (SNP), do Ministério das Cidades, e pelo Programa Cemaden Educação, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Cemaden, do Ministério das Cidades (MCID), do Ministério da Educação (MEC), SECADI e do Governo Federal.
Ao reconhecer que os desastres não são naturais, pois seus impactos ocorrem quando não se enfrentam vulnerabilidades sociais, territoriais e institucionais, a campanha contribui para qualificar o debate público e fortalecer uma cultura de prevenção baseada em educação, informação e organização coletiva. O enfoque dialoga diretamente com a agenda de justiça climática, ao evidenciar que os eventos extremos afetam de forma desproporcional populações historicamente vulnerabilizadas.
Para o secretário Guilherme Simões, da Secretaria Nacional de Periferias (SNP), a participação social é condição para a efetividade das políticas públicas de prevenção.
“Sem o envolvimento de quem vive e sente na pele as consequências, não conseguiremos avançar. Temos de ouvir e apoiar as pessoas e suas comunidades. Ninguém escolhe viver em área de risco, e é nossa obrigação, como gestão pública, trabalhar para que isso não seja mais realidade”, diz o secretário.
Para a diretora do Cemaden, Regina Alvalá, é exatamente esta articulação com a vida cotidiana das comunidades que traz sentido ao trabalho desenvolvido pelos especialistas.
“Quando criamos o Cemaden Educação, o que nos moveu foi o anseio de fazer o conhecimento científico chegar às pessoas. Não é fácil falar sobre risco de desastres, mas é muito importante traduzir os conhecimentos gerados nas pesquisas para que a sociedade deles se municie para se proteger”, avaliou a diretora do Cemaden.
Educação, participação social e ação coletiva
Nesta edição, a Campanha, de abrangência nacional, tem atuado em municípios de diversas regiões do país, definidos a partir de critérios técnicos de risco socioambiental. As ações incluem a formação de mobilizadores escolares e territoriais, educadores e facilitadores municipais, além do desenvolvimento de atividades pedagógicas, projetos de ciência cidadã e iniciativas de sensibilização comunitária.
Além de impactar diretamente cerca de 30 mil estudantes, a campanha dialoga e se articula com públicos estratégicos já beneficiados por políticas estruturantes do Governo Federal, como o Prêmio Periferia Viva — que reconhece iniciativas populares, assessorias técnicas e gestores públicos atuantes em territórios periféricos — e o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR), voltado a moradores de áreas críticas, gestores municipais, Defesas Civis e comunidades envolvidas no mapeamento e na prevenção de desastres.
Para Rachel Trajber, do Cemaden Educação, a escola e o território são espaços centrais da prevenção, por isso,
“falar de risco é falar de direito à vida, à moradia digna, à informação e à educação. A prevenção começa muito antes da sirene tocar: começa na escola, na comunidade, na conversa cotidiana sobre o território”, destaca.

Entre os principais eixos estão a formação continuada, com cursos gratuitos que somam 120 horas, a disponibilização de materiais educativos para uso em escolas e comunidades e a realização de encontros online e ações presenciais nos territórios. Os conteúdos abordam educação ambiental climática, redução de riscos de desastres, justiça climática e ciência cidadã, conectando conhecimento científico à realidade cotidiana das comunidades.
Racismo ambiental e vulnerabilidade no território
Os dados do IBGE, a partir do Censo 2022, evidenciam que as desigualdades raciais se expressam de forma concreta no espaço urbano. Pretos, pardos e indígenas enfrentam, proporcionalmente, menor acesso a saneamento básico, água tratada, coleta de lixo e moradia adequada, condições que ampliam a exposição cotidiana a enchentes, deslizamentos, contaminações e doenças associadas a eventos extremos.
Embora o termo racismo ambiental não seja utilizado oficialmente pelo IBGE, pesquisadores e organizações da sociedade civil apontam que esses dados confirmam uma distribuição racialmente desigual dos riscos ambientais no Brasil. Em um país onde a população negra (pretos e pardos) representa a maioria, são justamente esses grupos que, em maior proporção, vivem em áreas com infraestrutura precária e menor presença do poder público — territórios onde os impactos da crise climática são mais intensos.

A coordenadora de Articulação e Parcerias da Secretaria Nacional de Periferias, Samia Sulaiman, afirma que ações de prevenção passam necessariamente pelo enfrentamento das desigualdades estruturais.
“Reduzir risco é reduzir desigualdade, o que significa melhorar as condições de vida nas periferias e valorizar a participação social e iniciativas populares”.
Nesse cenário, a prevenção de riscos de desastres é apenas uma resposta técnica e passa a integrar uma agenda de justiça social e climática.
Campanha de campanhas
Com o tema “Cidades sem Risco”, a edição 2025–2026 adota o conceito de “campanha de campanhas”, estimulando que escolas, coletivos, universidades, organizações sociais, núcleos comunitário de defesas civil e iniciativas populares desenvolvam campanhas de prevenção em suas comunidades, adaptadas às realidades e aos riscos de cada território.
A campanha nacional atua como um guarda-chuva metodológico e institucional, oferecendo formação, materiais educativos, orientações e visibilidade para fortalecer ações locais e ampliar seu impacto em rede. Ao integrar educação, justiça climática e mobilização social, a iniciativa reforça que enfrentar a crise climática é também enfrentar desigualdades históricas e garantir o direito à vida e à cidade.

Rachel Trajber finaliza comentando que o conceito amplia o alcance da prevenção:
“A educação ambiental climática e a redução de riscos de desastres são ferramentas poderosas. Quando aprendemos a prevenir a partir do conhecimento, transformamos medo em ação, vulnerabilidade em força e risco em proteção à vida”, afirma.
Campanha: 9ª Campanha Nacional #AprenderParaPrevenir: Cidades sem Risco
Realização: Secretaria Nacional de Periferias | MCID | Programa Cemaden Educação | Cemaden | MCTI | Governo Federal
Parceria: SECADI | MEC |Governo Federal
Site oficial: https://educacao.cemaden.gov.br/campanhacidadeslp/
